sexta-feira, 13 de abril de 2012

Day 11

A Deceased person you wish you could talk to


Sabe vô, eu queria tanto conversar com você de novo (sim, você. Eu te respeitava muito e você sabe disso, mas nem por isso te chamava de senhor. Nós dois achávamos brega demais e combinamos o "você").
Como eu estava falando... Você era sempre cheio de histórias de pra contar... De suas viagens pelo mundo a bordo de enormes e luxuosos navios... Suas peripécias quando alguém te deixava com raiva... Suas morenas lindas que iam pra ponte de comando te desconcentrar do seu trabalho... É uma pena que eu fosse tão nova na época pra entender e aprender com aquelas histórias.

Apesar das suas manias, você foi o melhor avô que alguém podia ter. Aquele jeito meio mau humorado e valentão típico de um Capitão-Tenente Ex Combatente da 2ª Guerra Mundial. Que não sente nada, não tem pena de ninguém, não gostava de beijos nem abraços... Mas eu vi suas lágrimas no dia em que eu vim te visitar nas férias depois de seis anos que você e a vovó mudaram de estado. Nesse dia eu vi que dentro daquele casco de aço, existia um coração. Um coração enorme que ja tinha apanhado muito na vida e por isso se protegeu com todas as armas.

Seu senso se humor era meio engraçado e eu ficava com raiva quando eu pedia dinheiro pra comprar uma sandália, por exemplo e você dizia que era caro demais e eu não precisava de muitas sandálias se só tinha dois pés... Mas depois você ia rindo pegar o dinheiro (nos seus fundos falsos do guarda-roupa que ninguém podia mexer) e me dava muito além do que eu pedi, dizendo que eu podia comprar um refrigerante como "troco".

Tive sorte de ser a sua netinha única e sempre receber o seu carinho integral. Tive mais sorte ainda de você já ser aposentado enquanto eu crescia, porque eu não suportaria te perder em algum acidente no mar.

Adorava nossos passeios para Paquetá com direito a continência dos soldados e segurar o leme das barcas por alguns segundos. Infelizmente eu tinha cerca de seis anos e minha memória é falha, então eu só lembro desses momentos por meio das fotos que restaram e pelo meu pai que me conta a alegria em que eu ficava na época. Quando eu fiz nove anos vocês se mudaram, mas deixaram um grande presente para mim, na época resguardado pelo meu pai, e que até hoje eu colho bons frutos.

Não tive tempo de me despedir como deveria. Você já estava doente e por estar em período letivo, não pude ir te visitar. A última vez que falei com você ao telefone, você tinha acabado de voltar do hospital por causa de um AVC e eu lembro que comecei a chorar. Meio embaralhado, mal conseguindo falar, eu disse pra você não me dar mais um susto daquele e que era pra você ficar bom e voltar ao Rio pra me ver.
Você partiu na manhã do dia seguinte, deixando um buraco enorme dentro de mim.
Eu não queria acordar de novo depois que eu acordei as cinco da manhã com o telefone tocando. Meu pai atendeu, falou baixo e eu mal ouvi, mas algo dentro de mim sabia que era você quem tinha partido... Primeiro a mamãe (que te chamava carinhosamente de 'xuxu') e agora você. Eu não podia suportar aquilo. Desejei que o tempo parasse naquele momento e até hoje dói lembrar de como eu me senti. Vou parar por aqui porque as palavras sumiram e minha visão está turva pelas lágrimas.

Sua eterna Bibinha.


PS: Me doi mais falar de você do que da mamãe e agora eu me perguntei o porque disso. Talvez porque você esteve comigo até depois que eu descobri o que era um super herói e eu acreditei que você era um.

Um comentário:

obrigado pela visita (;